Texto de RAFAEL GARCIA - @rafagarc

Desde que comecei frequentar feiras e mercados nos EUA, dois anos atrás, adquiri o hábito de sempre olhar peixarias. Meu objetivo, em geral, era encontrar os excelentes filés de salmão defumado importados da costa oeste, que chegam à costa leste com bons preços. Por uns US$ 10, é possível comprar um filé inteiro, suficiente para preparar três sanduíches. Acabou virando meio que um hábito, pois é ótimo para quem gosta de peixe, mas tem preguiça de cozinhar. Basta um pouquinho de cream cheese, algumas alcaparras e está pronto um dos pratos mais saborosos que alguém sem habilidades culinárias pode fazer.
O prazer proporcionado por essa iguaria, porém, adquiriu certo sabor de culpa depois que li “Four fish” (Quatro peixes), do jornalista Paul Greenberg, livro-reportagem no qual o salmão é um dos protagonistas. Greenberg conta de suas andanças pelo Alasca, onde o Departamento de Caça e Pesca vive em conflito com pescadores e populações nativas para tentar impedir a sobrepesca na região. A espécie do Pacífico mais afetada pela pesca predatória é o salmão-rei (chinook), caro e difícil de encontrar. Espécies menores como o salmão-vermelho (sockeye) e o prateado (coho) costumam frequentar as peixarias de supermercados aqui em Washington, mas várias populações deste último também estão ameaçadas.
Continuei comprando coho, mas menos e com um pouco de remorso. A alternativa era comer salmão-atlântico, que não é tão saboroso, já que a maior parte da produção vem de fazendas. Sem a dieta selvagem de crustáceos, o salmão de fazenda fica meio pálido. Vivendo confinado, também acaba ficando muito gorduroso, com a carne cheia de estrias brancas. Aprendi isso tudo com Greenberg, que também emite um alerta em seu livro sobre o perigo de poluição por PCB na aquicultura da Costa Leste. E o salmão-atlântico selvagem, por fim, já praticamente não existe no mercado.
Há várias semanas sem comprar salmão, recebi agora a boa notícia de que o coho e do chinookestão começando a se recuperar. Segundo o relatório deste ano do Serviço de Pesca, após anos de implementação de uma política rígida de limites para a pesca, algumas populações conseguiram se recompor. Espero que os californianos comam devagar e deixem um pouco de peixe para outros estados.
Não que a Costa Leste mereça, claro. O relatório deste ano mostra que o salmão-atlântico (selvagem) continua em estado de conservação lamentável. Populações do outrora famoso bacalhau da Nova Inglaterra, que colapsaram na década de 1990, também não mostraram melhora. E outro peixe pelo qual desenvolvi grande apreço, o pargo (red snapper), está em situação ruim tanto no golfo do México quanto no Atlântico.
O consumo ambientalmente correto de sushi também virou tarefa difícil. O relatório mostra que o atum albacora (yellowfin) teve algumas populações recuperadas, mas o grande atum-rabilho (bluefin) continua ameçado em águas americanas, bem como no resto do planeta. Cardápios de restaurantes raramente avisam qual espécie estão servindo.
Toda essa conversa sobre pesca nos EUA pode parecer distante para o leitor brasileiro, mas três dos peixes mais apreciados pelos americanos –atum, salmão e bacalhau– também são muito consumidos em centros urbanos no Brasil. Não é a toa que no mundo inteiro esses animais estão enfrentando pressão da pesca predatória ou causando problemas ambientais quando criados em aquicultura. (O quarto peixe do livro de Greenberg é o robalo-europeu, Dicentrarchus labrax, cuja produção em fazenda teve uma explosão na última década).
Greenberg defende que a escolha dos consumidores, isolada, tem pouco poder de mudar essa realidade. Como ambientalista, diz crer que os estoques desses peixes só serão salvos no futuro por meio da pressão direta sobre governos e organismos internacionais. Não há fórmula mágica: é preciso criar áreas de proteção, limitar licenças de pesca e impor práticas sustentáveis de aquicultura.
Eu ficaria feliz de ver um progresso nesse sentido acontecer na Rio+20, sobretudo com relação ao atum e ao bacalhau, animais de águas internacionais, “águas sem lei”. O debate sobre o esgotamento dos estoques de peixes é um tema que está na programação do evento, mas de forma um pouco vaga, me parece. Se sair algo realmente concreto de lá, vou ficar surpreso. Enquanto isso, o relatório do Serviço de Pesca continua sendo ótima leitura para antes do menu.
Fonte: Folha – Blog Teoria de Tudo
Comentários