Texto de Thalita Pacini: Circuncisão Feminina!

 

Uma mutilação grotesca, desnecessária e horripilante ocorre o tempo todo. Quem sabe antes de um grito abafado, num quarto precário, talvez milhares, a cada instante… Como uma tradição na África e no Oriente Médio, fatiar o órgão genital feminino é destino certo: chega a ser quase até tão natural como o fato de que toda mulher menstrue. O ritual de circuncisão perdura com uma aderência impressionante, contando com a fidelidade canina dos executores da prática: como o que seria um padre empenhado no batismo católico (conhecido universalmente). Podemos talvez comparar a circuncisão a algum evento enraizado, difundido fortemente, mas um pouco mais pop: uma festa de debutantes. Sim, perfeito. Passagem da menina para a vida adulta, ela o centro das atenções, é o seu momento de pular da infância para o mundo irresistível das mulheres. Festa, comes e bebes, vestido de luxo, danças, um buffet, um príncipe. Um príncipe? A realidade das meninas circuncisadas é bem diferente: alguém traz uns comes a mais (já que quase nunca tem muito mesmo, qualquer migalha a mais é festejada) para enganá-las ou distraí-las, e esse é o momento de glamour da garota. Quando ela acha que está tudo uma maravilha, alguém a agarra, abre suas pernas e corta um pedaço seu. E isso não é menos pior se foi seguido pela alegre encenação prévia. A operação, abençoada por uma entidade superior e dignissima reguladora da felicidade segundo os seus responsáveis e idealizadores, é realizada em condições precárias: a incisão brutal que tolhe “a indivídua” de uma parte do seu corpo é realizada com cacos de vidro, tesouras enferrujadas ou facas com lâminas rústicas e nada higiênicas. Com um pouco de dificuldade (porque não estão enfiando uma colher numa gelatina), se partem as carnes e peles in natura entre as pernas, mais precisamente os lábios e clítoris. Posteriormente, a vagina é costurada sem anestesia, com grossas agulhas. A cicatrização é demorada, dolorosa e obrigará as crianças a permancerem sem mobilidade e com as pernas amarradas, durante vários dias. O objetivo é confeccionar uma grossa barreira de carne “preservando” o antro feminino do pecado e, claro, a mulher de qualquer contato com qualquer partícula de dignidade e prazer. Será conservado apenas um pequeno oríficio por onde flui a urina. Ela (a criança ou a mulher – às vezes de 6, 8, 13, 17 anos) sentirá dor intensa para urinar, mas é claro, se sobreviver à torpe intervenção cirúrgica. O futuro marido, que a esposa geralmente também não escolhe, terá muito “trabalho” para penetrá-la, e ela deverá facilitar calada as suas incursões. Para ela, sofrimento novo, mas nada que supere a dor da primeira obra…
Crianças são submetidas ao procedimento, sem consentimento e sem informações sobre o fato de que terão seu corpo violentado, a sangue frio, que sofrerão danos físicos e psicológicos irreversíveis, e que poderão ser agravados com o tempo. Praticamente inquestionável como costume religioso, e reprisado pelas próprias vítimas de geração para geração: é obviamente uma forma sádica e assutadora de assegurar a submissão feminina, fortalecendo uma sociedade patriarcal. Geralmente, os mais idosos perpetuam esta sina dentro de sua própria familia. E como é forte o peso familiar nesta atuação criminosa, desumana e hostil. Comunidades praticam a mutilação genital em mulheres e crianças com o aval de autoridades políticas e incentivo das religiosas, dogmatizando a condição de inferioridade da mulher e da criança: seres acéfalos e não dotados de direitos humanos. Estigmatizado o gênero e o sexo como fardo insuportável.
As comunidades praticantes continuam a exercer seu direito de submeter quem quer que seja à esta violência sagrada, pois já se trata do maior símbolo de identidade cultural destas nações.
O mundo ocidental é contra a mutilação, considerando grave corrupção dos Direitos Humanos. As crianças berram e se debatem porque não aguentam a dor, num claro momento de oposição ao que está ocorrendo, sem opção de manifestar sua vontade. Argumenta-se com a Convenção sobre os Direitos da Criança, proclamada em 1990. E a OMS busca divulgar os perigos e ilegalidade do ato para desestimular a prática.
Este assunto, no cenário ocidental, não comporta mediação. É crime, inaceitável, ponto. A grande polêmica gira em torno do direito à cultura, ao costume, a identidade cultural, religiosa e característica legímita, tribal, dos povos envolvidos. Isso veste a situação com roupas de um conflito mediável entre as nações, que não podem aplicar suas leis diretamente aos adeptos. Portanto, uma maneira ética de mediar, sem ferir outros direitos, é instaurando políticas educacionais, dando voz aos envolvidos a fim de, no mínimo, tornar a prática voluntária e não obrigatória (quem se candidata?). Cultivar padrões ocidentais junto às mulheres mais velhas, já submetidas ao ato, e aos familiares não é conveniente, pois estariamos sendo “tiranos” removendo um traço particular do conjunto “cultural”. Mas a tentativa de influência é necessária. Fornecer informação científica, de saúde, pode atingir pequenos grupos que são privilegiados de informação. Eu, particularmente, creio que estas pessoas mais esclarecidas, que fazem parte da cultura também, mas que já se opõem às práticas ou que não são coniventes com elas, poderíam participar de programas de proteção e educação, criados por organismos internacionais, afim de atuar no corpo a corpo com estas comunidades. Instruindo, prevenindo e impedindo/denunciando práticas a um sistema de fiscalização. Seria necessário uma organização dentro do próprio ambiente, por pessoas desta cultura, movimentos pacíficos, mas aos quais as pessoas pudessem se amparar para também enfrentar os prováveis preconceitos e represálias internas. E também, apoio às vítimas que não podem se defender. Um diálogo com autoridades seria “heresia”.
Difícil a questão… Alguém tem algo a dizer? A inspiração e vontade de raciocinar surgiu em meio à leitura de “Infiel“, autobiografia de Ayaan Hirsi Ali. Para mim, mais que uma referência, uma singular heroína.
Originalmente publicado no Laboratório da Thali.